domingo, 25 de outubro de 2009

Minha metade história


Marc Chagall


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Foi assim...

Quando senti o abismo entre nossos reflexos no espelho, ao perceber que nossas imagens estavam distorcidas num exagero de proporção, me senti impelida a fazer algo. Algo efetivo que me protegesse de um precipício gigantesco que se abria à minha frente.

Cair, seria fatal.

Estar ali na beira sem eira já abria uma chaga doída e sofrida. Abria lágrimas passando por medos ferozes na realidade que se impunha.

Como uma pilha de dominós que vão caindo, meus sonhos foram tombando um a um, em uma rapidez assustadoramente cruel. Com lágrimas ao ver tudo despencando, lembrei-me de peça por peça erguido em cada doce momento em que vivi ao seu lado.

Sabe aquele doce sorriso maroto que soltou leve ao me ver passar a primeira vez? Foi a primeira peça.

O som que ecoava em minha alma quando acordei após aquela noite, cada pedacinho dela, vibrando notas de alquimia, sintonia rara e completude, foi a segunda peça.

As primeiras palavras ligeiras batendo no portal virtual, abrindo portas de uma nova realidade romântica  suave.

A primeira conversa de MSN com tantas trocas de letras de canções, em especial aquela que marcou o início, a canção que diz que ninguém sabe o fim. Da primeira vez que meus pés tocaram seu chão, que escutei os solos da guitarra, que sorri com seu sorriso, que minhas mãos imaturas tentaram em vão imitar sons agudos do seu instrumento ruivo.

A primeira troca de verborragias, num intenso compartilhar de tantas sonhos e sentir idênticos.

E o momento mais fatal: o primeiro verdadeiro olhar. Aquela enxurrada de luzes de sua íris me penetrando absurdamente. Ali, senti algo inexplicável e assustadoramente fantástico. Como um deja´vu potente impondo lembranças que nem existiram, pelo menos não nesse espaço de tempo. Que luzes tão lindas eram aquelas me inebriando de eternidade? Só uma expressão me vinha à cabeça insistentemente, leve e saltitante: Pra sempre, pra sempre, pra sempre! PRA SEMPRE!

Ali, na troca de olhares profundo, vários dominós foram erguidos de uma única vez. Apenas com esse olhar, me apaixonei pela sua alma, talvez porque refletia a minha.

Em seguida veio o abraço. E que abraço! O calor que emanava dele trazia ondas de paz como um barco que navega em mares calmos e iluminados por azul e dourado do sol.

Inevitável neste misto de sensações, que nossas bocas se unissem, pois nossas almas desejavam-se fundir imediatamente. E o beijo nasceu sereno, numa suavidade com sabor de fruta do pé, doce e inédita, com aquele frio na barriga de quando roubamos do pomar do vizinho, sabe?

Em seguida, foram tantas emoções que nem dá pra descrever. Só posso dizer que dormir virou luxo, pois os pensamentos pululavam de você para você. E quando os pensamentos se acalmavam com sua voz no telefone, restava  saudade que não cabia no corpo, na casa, na cidade e nem no universo de tão grande!

E quando a saudade ultrapassava o cosmos inteiro e nossas íris doíam de falta uma da outra, restavam  madrugadas companheiras, guardiãs de nossas trocas irreais. Lembra disso? Dos torpedos que brotavam ao mesmo tempo revelando nossa sintonia única?

Do amor no branco duro do chão restando marcas na pele, das risadas e grunhidos no meio, na citação de sociologia, teatro e poesia emanharado com beijos, gemidos e sincronismo único.

Até aí, apenas na metade de nossa história, todas as peças brancas com pontos pretos estavam erguidos em distancias e medidas perfeitas.

E por motivos inexplicáveis, a mão do Deus esbarrou em todas as lindas peças do dominó.

Assisti assombrada a ruína. E o pó.

Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Era quase sangue que jorrava de mim pelos olhos. Era quase metade de mim. Era quase a alma, a calma, o sossego, a paz. Era meu sorriso que ia embora pela falta do seu, pois ele é aquilo que mais amo, que mais acende meu coração ao sentir você.

E foi por ele que fiz tudo. Que me despreendi de amarras de rótulos, que insisti tantas vezes ao seu lado para espiar o passado, que me livrei de ciúmes infantis e te deixei livre como pássaro. Foi para ver meu maior tesouro reluzindo. Seu sorriso é tudo pra mim. É o meu.

Quando sobrou pó e deparei-me com a altura em que estava, tratei de voltar lentamente. Procurei com calma um bonito lugar iluminado, perto de uma frondosa árvore e cavei um buraco, sem ajuda de enxada. Com as unhas e as mãos, com toda a força que me restava para enterrar todo aquele pó. Enterrar todos os sonhos sentidos que de repente perderam sentido.

Com uma força descomunal de quem queria profundidade, cavei fundo. O mais longe que pude.Em breves momentos, a nostalgia dos sonhos erguidos se erguia intrometida, mas ignorei, fechei os olhos e ouvidos para tudo que me lembrasse você.

Olhei para todas as cinzas. Sorri com tristeza, mas ao mesmo tempo sorri por dentro porque imaginei que sorria em algum lugar e com quem estivesse. E foi-se. Toda a cinza. Sem questionar-me se fazia certo, só queria me livrar do peso da dor.

Joguei toda a terra por cima. Fiz uma prece de despedida e felicidade, transformei num passado sentimento entoado por minha voz, cantando novas bênçãos, implorando ao sol uma nova luz a iluminar meu sorriso para sair à toa por aí.

E parti para novas experiências. Te deixei com as suas. Guardei no peito e nos recônditos as mais profundas lembranças tão únicas e parti sem medo.

Um dia, tive que retornar naquele verdejante pasto. Afinal, festas e canções me chamavam com freqüência. Queridos compatriotas de arte pediam minha presença e como a saudade do universo de um mundo de cascos era grande, retornei aos meus.

E seu sorriso nesse encontro me explodiu em mil pedaços de novo.

Ignorei que poderiam nascer flores no local do enterro.

As vi tão belas e perfumadas e vislumbrei um lindo jardim de amizade. O mesmo compartilhar de antes, com alguns detalhes a menos.

Feliz de poder respirar o mesmo ar com cheiro novo a invadir meus pulmões, canalizei todas as minhas energias para isso. Fazia muito sentido, afinal, não era pra sempre, sempre de alguma forma, jamais morna?

Por ora, uma lembrança fugitiva me assombrava, mas ignorava e seguia em frente, feliz porque chegou a primavera e o jardim estava maravilhosamente lindo. A sua nova paixão era uma bela orquídea solitária e misteriosa. Te vi admirando-a tantas vezes, e mesmo que isso me causasse em pequenas doses uma pontada, seu sorriso era o mais importante.

Orgulhava-me de transformar tão belo amor em amor maior despreendido.

De repente você cisma comigo nesse novo papel. Implica com minhas falas, replica as ações físicas que criei, procura falhas na minha atuação sincera como atriz entregue e insana que sou.

E encontra.

Encontra falhas trágicas por todos os lados. Encontra falhas em falas, intenções e coloca em xeque meus estudos sobre Artaud, Meyerhold, Stanislavski , Peter Brook e todos os outros contemporâneos que falam da arte de atuar.

Coloca-me na parede e me escancara verdades que de tão enterradas, nem sabia mais que existiam.

Vai cavucando meu jardim de flores, de fininho. Abrindo espaço para o que estava enterrado ressurgir.

Vislumbro o buraco assombroso cheio de pó que enterrei.

E a dor ressurge justamente das cinzas.

Implacável e feroz.

Ela coloca o dedo na minha cara e diz:

- Você enterrou prematuramente e num impulso. Não deu tempo de chorar os restos. Não deu tempo de olhar para trás. Saiu correndo sem pensar, e quando porventura pensava, obrigava-se a não pensar.

Mais lágrimas, mais metade de mim, mais lembranças doces voltando.

Por que? Pra que? Não era mais fácil me deixar com a minha atuação sincera e ingênua que aos poucos iria se transformando em maestria?

Não era mais fácil ir cultivando esse novo jardim florido, mesmo que às vezes me machucasse levemente com espinhos? Não valia mais o perfume que minhas narinas inspiravam do que leves ferimentos nos dedos?

Um dia aprenderia a não mais me machucar, já que o tempo ensina tudo.

Mas não. Você insistiu em dizer que no papel de jardineira de sonhos, eu não encaixava.

Qual o papel que me resta então? Uma mera espectadora de orquídeas e primavera? Sentia-me feliz de cultivar nossas flores, comungar com você companheirismo.

Sim. Talvez você tenha razão. Talvez exista sentimento. Tamanha imensidão do que senti ,de tão grande foi impossível de ser enterrada tão rapidamente e definitivamente. Talvez restem cinzas a mais, sonhos abafados.

De que adianta tudo isso se me falta convicção que você seja convicto do amor que sente por mim?

Não há o que se fazer. Apenas sermos o que nos resta e isso me basta.

Basta saber que está feliz.

Acho que nunca vai entender tamanho sentimento que tenho. Como disse, é tão extraterrestre, desafia a teoria da relatividade e todos os limites da razão. É confuso, nem ele se entende a devaneios e emanharados de sensações e pensamentos.

Não quero pensar o quanto seria lindo se a reciprocidade fosse igual. Se a convicção fosse igual. Se ignorasse falhas trágicas que eu porventura tenha. Se parasse de buscar felicidade sempre além, quando ela está bem ali num holofote iluminando seu palco. Se não fosse tão confuso, tão apegado ao passado. Se fosse mais maduro e tivesse aprendido que amor é algo tão mais sublime que paixão. Que amor é mais amizade e companheirismo que inebriantes sensações causadas pelo torpor da paixão. Que é simples, que se basta. Que muda de forma, mas é pra sempre.

Não quero pensar em quantas músicas comporíamos juntos. Nem o quanto você me incentivaria a me jogar na arte e sobrevoar minhas inseguranças. Nas risadas e nas pirraças que trocaríamos todos os dias, ou boa parte deles. Nos telefonemas intermináveis, nas encenações sexuais que bolaríamos, nos beijos de tantos tipos, na imprevisibilidade que nos acompanha, na doce companhia e conforto de um abraço e um carinho trocado. Nas nuvens que contaríamos no céu e na adivinhação das formas que elas têm. Na chuva do fim de tarde que nos entregaríamos explodindo em risadas e brincadeiras de crianças molhadas. Nos sonhos compartilhados e conquistados juntos.

Não quero pensar nas assombrosas semelhanças que nos unem e nem nas diferenças deliciosas que nos atraem. Não quero pensar que ao seu lado poderia viver pelo tempo que tivesse que durar, cheia de experiências ricas e diferentes. Não quero pensar que seria tão livre, leve com sabor de chocolate com pimenta.

Não quero pensar em nada.

Então, não me cutuque mais, se sua alma se joga em direção oposta a minha.

E cutucar não significa evitar assuntos de seus cultivos e sorrisos. Significa não falar de nós.

Não quero pensar que conheci alguém assustadoramente compatível, com sintonia rara e tudo foi guardado num baú escrito: Passado Sentimento.

Não quero pensar nos milhares de “e se?”...

Você tem razão. Percebi pela quantidade de soluços e água que escorreu d´alma madrugada adentro, que ainda te amo. Mas de que adianta? Não quero pensar.

Vou enterrar de novo. E definitivamente.



Como diz a próxima canção que logo ouvirá minha: “Vá tão só e me deixe com esse pó que eu recolho em canções.”

Farei mil canções se necessário pra expurgar tudo de ti que ainda faz questão de pulsar.

Ajude-me  nesta tarefa. Apenas enterre junto comigo o que vivemos em vão.

Beijo o chão ao me despedir.

Sim, seria lindo. Mas não foi. Sem lamentos vou-me mais uma vez. Quando voltar, sabes: silêncio pra sempre, pra que o pra sempre, sempre exista entre nós.

Beijos de amor eterno de tantas formas de uma ridícula...

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4 comentários:

  1. oi, mais um de seus textos densos, como sou ignorante não entendi se era um início ou uma despedida. Acho que preciso ler mais, pra melhorar minha interpretação de texto

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  2. O fim é sempre o início de algo...

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